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O ano era 1982. O Brasil de Telê Santana havia perdido para a Itália de Paulo Rossi. Verdadeira tragédia nacional. O país estava no fim de uma cruel ditadura militar que se arrastava há anos. Os meus pais haviam acabado se separarem. O Cine Oásis, em São Simão, exibia Grease – Nos tempos da brilhantina. Eu tinha apenas seis anos e fui ao Cinema pela primeira vez. Passava em frente ao Cinema e ficava observando o cartaz exposto ao lado da bilheteria. “Censura Livre”. Pensava: “esse eu posso assistir”. Mas meus irmãos não queriam que eu fosse com eles. Bati o pé, fiz pirraça, chorei e enfim minha mãe os obrigou a me levarem ao Cinema. Foi a minha noite de estréia. Vesti a minha melhor roupa, passei gel no cabelo, comprei pipoca, frutela e entrei pelo tapete vermelho do Cine Oásis. Casa cheia, um intenso vozerio, um clima de flerte no ar que a minha ingenuidade de garoto não permitiu perceber. As luzes se apagaram. Silêncio. Eu precisava me esticar todo na poltrona para conseguir ver o que se passava na tela. “Isso ainda é o Trailler, quando começar o filme eu te aviso”, sussurrava meu irmão ao pé do meu ouvido. A essa altura a pipoca já havia acabado e eu me emprenhava em tirar os milhos que ficaram presos por entre os dentes. “Começou, presta atenção para você entender”, depois disso meu irmão não falou mais nada até o filme acabar. Os olhos vidrados naquela tela imensa não ousavam sequer piscar. Um mundo novo nascia para mim, um mundo a parte do mundo real em que vivia, um mundo lúdico em que a realidade se confundia com os sonhos a todo instante. John Travolta e Olivia Newton-John pareciam reais e ao mesmo tempo pareciam fazer parte de um grande sonho que eu vivia naquele momento. Cantavam e dançavam nas arquibancadas de uma escola na Califórnia dos anos 50 como se não existisse mais nada no universo além do Amor que sentiam um pelo outro. Tudo era perfeito. Nunca me esquecerei desse dia. O dia em que fui ao Cinema pela primeira vez e me apaixonei perdidamente por ele.
Quando voltei a São Simão no ano seguinte para passar as férias, minha avó me disse que o Cine Oásis havia fechado. Fui correndo para lá. Ao lado da bilheteria ainda havia alguns cartazes de filmes. A porta fechada com um grande cadeado, um vidro quebrado, o tapete rasgado, uma latinha amassada de refrigerante no chão. Bateu uma tristeza aguda, daquelas que doem no fundinho do peito. A minha história de amor com o Cine Oásis durou apenas um dia, mas deixou marcas para a vida toda.
Nunca mais tive notícias de um novo cinema em São Simão. Acho que o Festival Cultural vai poder proporcionar a muitos garotos de hoje a mesma experiência que vivi há 27 anos. E fazer com que muita gente se lembre das suas histórias com os Cinemas que já existiram na cidade. Talvez assim vamos reconhecer a falta que eles nos fazem.
Danilo Gullane
Curador do Festival Cultural 2010
2 Comentários até o momento
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Muito legal. Saudoso Cine Oasis. Parabéns a todos. Vida longa ao festival.
Comentário por André 5 05UTC dezembro 05UTC 2009 @ 2:47 pmParabéns pela iniciativa de realizar o Festival. São Simão merece este prestigio. Muito Sucesso a vocês!
Comentário por Mateus Peres (Matusa) 15 15UTC janeiro 15UTC 2010 @ 12:44 am